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	<title>Alma Carioca - Literatura</title>
	
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	<description>Contos, Crônicas e Poesias em português</description>
	<pubDate>Sat, 04 Jul 2009 16:19:38 +0000</pubDate>
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		<title>O chamado do telefone - Charles Silva</title>
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		<pubDate>Sat, 04 Jul 2009 16:19:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Charles Silva</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Charles Silva]]></category>

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		<description><![CDATA[A resistência, sabemos todos, tem limites. É possível resistir a quase tudo: chocolate, bombom e outras guloseimas. Resiste-se ao primeiro beijo, ao segundo copo, às terceiras intenções. Somos capazes de resistir a ofensas, ao impulso do revide, a palavrões na hora da raiva. Difícil mesmo é resistir ao chamado do telefone.
O telefone é um aparelho [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">A resistência, sabemos todos, tem limites. É possível resistir a quase tudo: chocolate, bombom e outras guloseimas. Resiste-se ao primeiro beijo, ao segundo copo, às terceiras intenções. Somos capazes de resistir a ofensas, ao impulso do revide, a palavrões na hora da raiva. Difícil mesmo é resistir ao chamado do telefone.</p>
<p style="text-align: justify;">O telefone é um aparelho de inspiração cubista, uma revolução tecnológica onde boca e ouvido reinventam a cabeça humana, dispensando olhos e nariz. Cego e sem faro, ele ouve e fala e, o que é pior, ele nos chama! Como resistir a seu chamado?</p>
<p style="text-align: justify;">Então, ela está apaixonada, encantada por um novo príncipe que marcou na própria mão o seu número. Da primeira vez que o telefone chamou, às oito da noite, sentiu aquele frio na barriga, o coração disparou, a voz quase lhe faltou: “Alô!” Era aquela tia que, uma vez por ano, resolve fazer uma visitinha de duas horas pelo telefone. Com respostas curtas, a sobrinha pretende se livrar da intrusa e do tédio das perguntas, “Como vai a vida, a cidade, o mundo?” E a senhora do outro lado da linha é implacável, começa a dar notícias pequenas de seu mundo lento, sua conversa com as plantas, seu gatinho, seu cachorrinho, seu cocozinho&#8230; Por que essa velha não morre?</p>
<p style="text-align: justify;">Do outro lado da linha, o príncipe vai se convencendo que anotou o número errado. Duas horas, cento e vinte tentativas! E o telefone sempre ocupado. Finalmente, a tia se despede: “Tchau, meu anjo. Juízo, hein? Posso falar um pouquinho com seu pai?” Desespero. O sangue, incandescente pela metalurgia da raiva, quer forjar uma guilhotina para decapitar a parente. É preciso resistir a grosserias, afinal de contas, os chatos são sempre educados. Quanto mais chato, tanto mais educado é o sujeito. Os chatos estão para a educação, assim como o amigo invisível está para o presente de um e noventa e nove!</p>
<p style="text-align: justify;">Às onze e meia, o telefone está livre da tia&#8230; e do príncipe. O telefone chama novamente. Só pode ser ele! Novos calafrios, emoção! É um vendedor de consórcio: “Você já tem automóvel? De que marca? Está pensando em trocar? Que cor? Até quanto?” Polida, a apaixonada pergunta: “O senhor sabe que horas são?” Ele insiste. Ela, irônica, não resiste: “Pensando bem, acho que vou comprar um carro de funerária pra transportar o senhor e o meu saco!” E bate o telefone.</p>
<p style="text-align: justify;">Minutos depois, o telefone chama novamente. Novo tremor. Os apaixonados são fabricantes de esperança e de outros tremores. “Alô, o Milho Verde está?” “Aqui não tem ninguém com esse apelido, moço!” “Então, por que estou falando com uma cara de pamonha?!” Ah, o trote numa hora dessas revela sensações nunca antes experimentadas!</p>
<p style="text-align: justify;">O relógio, incansável, vai penetrando a madrugada. A apaixonada retira a maquilagem e veste a camisola, desolada. O sono chega na ponta dos pés e vai subindo pelo corpo inteiro. Mas o telefone insiste em chamar. Novo sobressalto. O príncipe se atrasou, só pode ser isso! Corre-corre, alegria, olhos iluminados! Era o engano perguntando sobre uma tal de kelly, dezoito anos de pura malícia, aceita pré, com local. Decepção e cansaço. O telefone pode ficar rouco de tanto gritar, ela decide ignorá-lo, amaldiçoa Grambell e, reduzida a uma lagoa de prantos, lembra do príncipe&#8230; e se despede entre suspiros e pirilampos.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas os apaixonados são de linhagem contraditória, quebram juramentos, descumprem promessas, violam acordos. Logo nas primeiras horas da manhã, ela acorda com o chamado da mãe: “Levanta, telefone pra você! É um rapaz com voz de sapo”.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Charles Silva nasceu em 1966, na cidade de Florianópolis, onde reside até hoje. É mestre em Educação e Comunicação, poeta, cronista e contista. É autor do livro de poesias “do açúcar à pimenta”.</em></p>
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		<item>
		<title>O amor e a vida - Geraldo Magela</title>
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		<comments>http://www.almacarioca.net/o-amor-e-a-vida-geraldo-magela/#comments</comments>
		<pubDate>Sat, 04 Jul 2009 16:16:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Geraldo Magela</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Geraldo Magela]]></category>

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		<description><![CDATA[Certa vez, numa reunião de amigos, foi feita a seguinte pergunta:
- O que você acha mais importante na vida : a saúde, o dinheiro ou o amor?
As pessoas se dispuseram a responder e as opiniões foram diversas mas sempre, em relação à saúde e o dinheiro.
Uns disseram :
- A saúde é mais importante porque sem [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Certa vez, numa reunião de amigos, foi feita a seguinte pergunta:<br />
- O que você acha mais importante na vida : a saúde, o dinheiro ou o amor?<br />
As pessoas se dispuseram a responder e as opiniões foram diversas mas sempre, em relação à saúde e o dinheiro.<br />
Uns disseram :<br />
- A saúde é mais importante porque sem ela não adianta dinheiro ou amor!<br />
Outros disseram:<br />
- O dinheiro é mais importante porque sem ele não se faz nada neste mundo materialista e de nada vai me adiantar ter amor!<br />
O interessante é que ninguém havia se posicionado a favor do amor até que um rapaz, calado e tímido, se levantou e disse:<br />
- Eu acho que o mais importante na vida é o amor, porque não depende de dinheiro e nem de saúde!<br />
-Como? perguntou uma s enhora, mas eu não consigo ser amada, ainda mais sem dinheiro e pior, se não tiver saúde!<br />
-Ai é que está o problema, as pessoas pensam somente em receber amor e não em dá-lo aos outros. E se você não se dispuser a dar amor às pessoas você também não receberá em troca amor delas.<br />
Porque o amor é para ser dado, oferecido, ofertado, sem condições, sem prêmios, recompensas, desejos, apenas gratuitamente, desinteressadamente, com todo o meu coração e todo o meu ser. A partir dai eu poderei receber amor também, embora não obrigatoriamente, mas somente a doação de amor deve satisfazer o doador, se for oferecido sem interesse e pré-condições!<br />
E, o mais importante, o amor é infinito, não acaba nunca, você poderá doá-lo a todas as pessoas e coisas deste mundo que ainda sobrará amor em seu coração. E não depende de você ser rico, ter ou não ter dinheiro, ter ou não ter saúde, e sabe porque?<br />
Jesus Cristo deu amor ao mundo, a todas as pessoas, sem dinheiro, sem riquezas e, ainda por cima, pregado numa cruz!</p>
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		<title>Comentário de Fernando Genú</title>
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		<comments>http://www.almacarioca.net/comentario-de-fernando-genu/#comments</comments>
		<pubDate>Sat, 04 Jul 2009 13:43:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Afonso</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Espaço do Leitor]]></category>

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		<description><![CDATA[Em &#8220;Resiliência&#8220;, de Hila Flávia
 
Oi, Hila, muito prazer, sou Fernando, filho da “mãe poeta”, Ana Lúcia. Achei muito interessante o termo para uma aproximação ao ser humano. Expressa um dinamismo que leva o ser humano a permanecer sendo quem é e, assim, a defender-se de tudo aquilo que o ameace da possibilidade não só de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<h4 style="text-align: justify;">Em &#8220;<a title="Resiliência" href="http://www.almacarioca.net/resiliencia-hila-flavia/" target="_self">Resiliência</a>&#8220;, de Hila Flávia</h4>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;">Oi, Hila, muito prazer, sou Fernando, filho da “mãe poeta”, Ana Lúcia. Achei muito interessante o termo para uma aproximação ao ser humano. Expressa um dinamismo que leva o ser humano a permanecer sendo quem é e, assim, a defender-se de tudo aquilo que o ameace da possibilidade não só de viver, existir, mas de ser “ele mesmo” (resistência à destruição); e, por outro lado, um dinamismo que o leva a construir uma existência autêntica, no encontro com os demais, na realização de si mesmo no amor (capacidade de construir). Costumo chamar esses dinamismos como “permanência e desdobramento”. Acredito que a resiliência, entendida como capacidade de superação, deva estar fundamentada na consciência de que os seres humanos nascemos para alcançar a realização desses dinamismos: viver de acordo a quem somos numa existência marcada pelo amor. Seremos capazes de superar-nos à medida que tomemos em sério esse projeto. Sem dúvida é difícil, sem dúvida é tarefa para homens de verdade, mas: quem está chamado a ser homem de mentira? Como você mesma menciona, são intermináveis os recursos dos quais dispõe o homem para “superar-se”. Acho que um primeiro passo é ser capaz de reconhecê-los e um segundo é o maravilhar-se, assombrar-se com eles. Deve-se ter a capacidade de matizar a realidade (nem tudo é escuro, nem tudo é “cor de rosa”) e ser humilde para aceitar a realidade (aceitar-se também) e mudar o que se possa mudar… Sei que isso não é tudo e que a vida é mais complexa que isso, mas os grandes edifícios começam a ser construídos desde uma base bem posta, sólida, profunda… temos aí um bom começo: que o homem se aceite como uma maravilha ao mesmo tempo que um projeto… Temos pensar que isso é possível, tomar uma decisão na vida e ser coerentes com os próprios ideais, pois -como dizia Gabriel Marcel- “o que não vive como pensa, termina pensando como vive”.</p>
<p style="text-align: justify;">A resiliência fica mais interessante ainda quando o homem -chamado a ser artífice do próprio destino- descobre que não está sozinho na lida do dia a dia, senão que recebe todas as forças (graças) necessárias para o seu permanecer e desdobrar-se, daquele que é o Artífice dos Artífices. Entender que a luta pela própria felicidade é uma obra conjunta do homem com Deus deve ser sem dúvida capaz de iluminar de maneira gradual, pouco a pouco, as sombras (sofrimentos, desilusões, perdas, etc…) que parecem ocultar e impedir o desabrochar da própria vida… poucas palavras que buscam expressar a minha gratidão pela sua profundidade e coragem de “apostar” pelo homem. Acredito que temos TODA UMA VIDA para aprender a ser resilientes… conquistá-la é conquistar-se.</p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
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		<item>
		<title>Quem será? - Lu Dias</title>
		<link>http://feedproxy.google.com/~r/almacarioca/SCzE/~3/roMdtcR_cPI/</link>
		<comments>http://www.almacarioca.net/quem-sera-lu-dias/#comments</comments>
		<pubDate>Sat, 04 Jul 2009 09:10:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Lu Dias BH</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Lu Dias BH]]></category>

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		<description><![CDATA[
Quem vê esta figurinha sestrosa
De braço com sua holandesinha
Não tem idéia do que aprontava
Esta tão doce menininha.
Era a princesa da casa
De todos ganhava carinho
E se algo não lhe agradava
Tratava de mostrar o biquinho.
A carinha rechonchuda
Estremecia aterrorizada
Sempre que uma mão boba
Suas bochechas repuxavam.
Desmanchar os cachinhos
Era coisa fora de moda
Sua briga com o pente
Custou muitas rebordosas.
Podem ver [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.almacarioca.net/wp-content/uploads/2009/07/lu.jpg"><img class="size-full wp-image-11352" title="Quem será?" src="http://www.almacarioca.net/wp-content/uploads/2009/07/lu.jpg" alt="Quem será?" width="426" height="568" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Quem vê esta figurinha sestrosa<br />
De braço com sua holandesinha<br />
Não tem idéia do que aprontava<br />
Esta tão doce menininha.</p>
<p style="text-align: justify;">Era a princesa da casa<br />
De todos ganhava carinho<br />
E se algo não lhe agradava<br />
Tratava de mostrar o biquinho.</p>
<p style="text-align: justify;">A carinha rechonchuda<br />
Estremecia aterrorizada<br />
Sempre que uma mão boba<br />
Suas bochechas repuxavam.</p>
<p style="text-align: justify;">Desmanchar os cachinhos<br />
Era coisa fora de moda<br />
Sua briga com o pente<br />
Custou muitas rebordosas.</p>
<p style="text-align: justify;">Podem ver os bons amigos<br />
Na foto, a raiva da menina<br />
Com o cabelinho escorrido<br />
Por milagre da brilhantina.</p>
<p style="text-align: justify;">E para maior sacrifício<br />
Colocaram-na numa mesa<br />
Entre dois vasos de folhas<br />
Pra destacar sua beleza.</p>
<p style="text-align: justify;">O vestidinho branco de fita<br />
Tinha babado pra todo lado<br />
E o sapatinho de couro preto<br />
Era abotoado no calcanhar.<br />
(São dois pra lá/<br />
Dois pra cá)</p>
<p style="text-align: justify;">Na dedo um falso brilhante (ficou escondido)<br />
E brincos iguais ao colar (idem)<br />
Ouve a voz do homem (murmurando)<br />
Sorria, que vou clicar.</p>
<p style="text-align: justify;">Algo ainda me intriga<br />
Depois dos anos rolados<br />
Por que essa menininha<br />
Ainda continua a meu lado?</p>
<p style="text-align: justify;">Em algumas coisas ela mudou<br />
Noutras nem tanto assim<br />
De uma coisa tenho certeza<br />
Nunca abandonou o biquinho.</p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
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		<item>
		<title>Cousas do amor - J. Triste</title>
		<link>http://feedproxy.google.com/~r/almacarioca/SCzE/~3/3i2SgFtQmP0/</link>
		<comments>http://www.almacarioca.net/cousas-do-amor-j-triste/#comments</comments>
		<pubDate>Sat, 04 Jul 2009 08:55:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>GUTIERRITOS</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[J. Triste]]></category>

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		<description><![CDATA[J.Triste (João Baptista Pimentel)
Após aquela briguinha
Tão feia, mas sem razão!
Eu ouvi, pela vizinha,
Que houve, até, separação!
Brigara a linda noivinha
Com o noivo – um rapagão!
Porque soube que ele tinha
Outro amor, no coração!
Era mentira. Partiram!
Nem sequer se despediram
E foram&#8230;nem sei para onde!
Só sei que, dias depois,
Eu encontrei com os dois,
A se beijarem&#8230;num bonde!
Poesia feita em 1957
 
		sb_id [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><em>J.Triste (João Baptista Pimentel)</em></p>
<p style="text-align: justify;">Após aquela briguinha<br />
Tão feia, mas sem razão!<br />
Eu ouvi, pela vizinha,<br />
Que houve, até, separação!</p>
<p style="padding-left: 30px; text-align: justify;">Brigara a linda noivinha<br />
Com o noivo – um rapagão!<br />
Porque soube que ele tinha<br />
Outro amor, no coração!</p>
<p style="text-align: justify;">Era mentira. Partiram!<br />
Nem sequer se despediram<br />
E foram&#8230;nem sei para onde!</p>
<p style="padding-left: 30px; text-align: justify;">Só sei que, dias depois,<br />
Eu encontrei com os dois,<br />
A se beijarem&#8230;num bonde!</p>
<p style="text-align: right;"><em>Poesia feita em 1957</em></p>
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		<title>Desamor - Terezinha Pereira</title>
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		<pubDate>Sat, 04 Jul 2009 08:51:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Terezinha Pereira</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Terezinha Pereira]]></category>

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		<description><![CDATA[A moça, diziam ser a mais bela da cidade. Não se sabe por que, entre tantos, escolhera um moço como ele para se casar. Foi a conta de chegarem da lua-de-mel no Caribe, o marido cantou de galo. Mulher minha não trabalha fora. Não se pinta. Não veste roupas com decote.
Mansa, ela deixou de fazer [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">A moça, diziam ser a mais bela da cidade. Não se sabe por que, entre tantos, escolhera um moço como ele para se casar. Foi a conta de chegarem da lua-de-mel no Caribe, o marido cantou de galo. Mulher minha não trabalha fora. Não se pinta. Não veste roupas com decote.</p>
<p style="text-align: justify;">Mansa, ela deixou de fazer de tudo. Nem assim deu-se ele por satisfeito. Foi ficando calado, distante. A prisioneira foi perdendo o brilho dos olhos violeta e o colorido das faces.</p>
<p style="text-align: justify;">No dia do quinto ano de casamento, ela quis se mostrar mais bela. Quem sabe? Convidou o marido para saírem para jantar. Roupa nova não tinha. Porém, o corpo ainda se mantinha com antes. Pôs um vestido dos primeiros anos de casada, repetiu o penteado do tempo do encanto e coloriu de leve os lábios.</p>
<p style="text-align: justify;">O marido, ao chegar a casa e ver a mulher com tanta diferença, gritou que era um traído. Sem tino, correu até o carro, pegou uma arma e deu dois tiros certeiros. O primeiro pegou a mulher. O outro, o seu próprio ouvido.</p>
<p style="text-align: justify;">Ele morreu de imediato. Ela ainda vive. Vegeta. Em cima de uma cama. Pode mexer com a cabeça, falar e acompanhar o que acontece à sua volta com seus olhos cor de violeta. Apenas.</p>
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		<title>Cedae e a falta d’água</title>
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		<comments>http://www.almacarioca.net/cedae-e-a-falta-dagua/#comments</comments>
		<pubDate>Sat, 04 Jul 2009 06:40:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Afonso</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Crônica da madrugada]]></category>

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		<description><![CDATA[

 
Na semana passada a Cedae, finalmente, consertou um grande vazamento de água, na esquina da Av. Embaixador Abelardo Bueno com Rua Jorge Faraj, em frente ao Autódromo, na Barra da Tijuca. A água jorrava com muita força e, durante 15 dias, destruiu calçadas e canteiros, além de inundar as pistas de rolamento e a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.almacarioca.net/wp-content/uploads/2008/09/cronica1.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-924" title="Crônica da madrugada" src="http://www.almacarioca.net/wp-content/uploads/2008/09/cronica1.jpg" alt="Crônica da madrugada" width="468" height="60" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.almacarioca.net/wp-content/uploads/2009/07/cedae.jpg"><img class="size-full wp-image-11355 aligncenter" title="Jóia da Barra" src="http://www.almacarioca.net/wp-content/uploads/2009/07/cedae.jpg" alt="Jóia da Barra" width="450" height="445" /> </a></p>
<p style="text-align: justify;">Na semana passada a Cedae, finalmente, consertou um grande vazamento de água, na esquina da Av. Embaixador Abelardo Bueno com Rua Jorge Faraj, em frente ao Autódromo, na Barra da Tijuca. A água jorrava com muita força e, durante 15 dias, destruiu calçadas e canteiros, além de inundar as pistas de rolamento e a tubulação de cabos da NET.</p>
<p style="text-align: justify;">Coincidência, ou não, a partir daí começou a faltar água no Condomínio Jóia da Barra, com cerca de 500 apartamentos, localizado nesta mesma esquina (ver imagem).</p>
<p style="text-align: justify;">As equipes da CEDAE estiveram no local e informaram, após análise do problema, que a causa da falta dágua era algum problema interno no condomínio. Só não informaram por que a água, que antes chegava com pressão ao hidrômetro, agora chega bem fraquinha, praticamente um filete.</p>
<p style="text-align: justify;">A CEDAE não admite a responsabilidade, não conserta, e ainda transfere a culpa para o usuário final. Conheço bem os serviços da <strong>CEDAE</strong>. O problema da falta d&#8217;água em Iguabinha (Araruama) só foi eliminado quando o fornecimento de água passou para a responsabilidade da empresa <strong>Águas de Juturnaíba</strong>.  Bastou tirar a <strong>CEDAE</strong> para acabar o problema. Estranho, não?</p>
<p style="text-align: justify;">Vamos ver o que acontecerá no fim de semana, quando as mais de 2000 pessoas que vivem no <strong>Condomínio</strong> <strong>Jóia da Barra</strong> estarão em casa. Sem água!</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Atualização das 11 horas:</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">No início deste sábado a administração do Condomínio encomentou carros-pipa.</p>
<p><a href="http://www.almacarioca.net/wp-content/uploads/2009/07/015.jpg"><img class="size-full wp-image-11361" title="Carro pipa no Jóia da Barra" src="http://www.almacarioca.net/wp-content/uploads/2009/07/015.jpg" alt="Carro pipa no Jóia da Barra" width="480" height="360" /></a></p>
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		<title>Elis Regina - Folhas Secas</title>
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		<comments>http://www.almacarioca.net/elis-regina-folhas-secas/#comments</comments>
		<pubDate>Fri, 03 Jul 2009 23:30:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Afonso</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Fim de noite]]></category>

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		<description><![CDATA[

Preciso aprender a ser só

 
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	]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.almacarioca.net/wp-content/uploads/2008/09/fimdenoite1.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-926" title="Fim de noite" src="http://www.almacarioca.net/wp-content/uploads/2008/09/fimdenoite1.jpg" alt="Fim de noite" width="500" height="80" /></a><a href="http://www.almacarioca.net/wp-content/uploads/2008/09/fimdenoite.jpg"></a></p>
<p><object width="445" height="364"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/2JPnhwFJofk&#038;hl=pt-br&#038;fs=1&#038;rel=0&#038;color1=0x006699&#038;color2=0x54abd6&#038;border=1"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/2JPnhwFJofk&#038;hl=pt-br&#038;fs=1&#038;rel=0&#038;color1=0x006699&#038;color2=0x54abd6&#038;border=1" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="445" height="364"></embed></object></p>
<h2>Preciso aprender a ser só</h2>
<p><object width="445" height="364"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/C6F5pdPN_xk&#038;hl=pt-br&#038;fs=1&#038;rel=0&#038;color1=0x006699&#038;color2=0x54abd6&#038;border=1"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/C6F5pdPN_xk&#038;hl=pt-br&#038;fs=1&#038;rel=0&#038;color1=0x006699&#038;color2=0x54abd6&#038;border=1" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="445" height="364"></embed></object></p>
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		<title>Vitimização e sadomasoquismo - Lu Dias</title>
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		<comments>http://www.almacarioca.net/vitimizacao-e-sadomasoquismo-lu-dias/#comments</comments>
		<pubDate>Fri, 03 Jul 2009 17:36:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Lu Dias BH</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Lu Dias BH]]></category>

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		<description><![CDATA[Dias atrás, a minha filha chegou desconsolada e raivosa, com uma nota que recebera numa prova, pois achava que essa se encontrava abaixo do valor merecido.
E como é do meu feitio, jamais adotar o comportamento de leoa, para proteger o meu rebento, pois acredito que esse seja danoso a sua adaptação ao mundo, calmamente pedi-lhe [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Dias atrás, a minha filha chegou desconsolada e raivosa, com uma nota que recebera numa prova, pois achava que essa se encontrava abaixo do valor merecido.</p>
<p style="text-align: justify;">E como é do meu feitio, jamais adotar o comportamento de leoa, para proteger o meu rebento, pois acredito que esse seja danoso a sua adaptação ao mundo, calmamente pedi-lhe que me desse as razões pelas quais se sentia injustiçada.</p>
<p style="text-align: justify;">Ouvi-as e sugeri que voltasse a conversar com o professor, demonstrando serenidade, segurança e, sobretudo, capacidade de dialogar e aceitar as respostas dele. Expliquei-lhe que todo ser humano, por maior que seja a sua carga intelectual, está fadado a cometer erros, mas que a proporção de um professor errar é bem menor do que a de um aluno.</p>
<p style="text-align: justify;">Para fechar o preâmbulo, devo dizer que tudo saiu a contento. Realmente o professor havia se enganado, pois o dia lhe fora muito estressante, com doença na família.</p>
<p style="text-align: justify;">Acho que a raiva da minha filhota era importante, de modo a torná-la menos vulnerável às repercussões emocionais que vão acompanhá-la ao longo da vida. Não a incentivei a se calar, até porque considero a omissão o maior dos pecados da humanidade, mas a buscar caminhos, de modo a extravasar a sua indignação.</p>
<p style="text-align: justify;">Na forma de lhe apresentar o mundo, uma preocupação está sempre presente em mim: o medo de que passe a agir como vítima. E, qualquer emoção não bem trabalhada, é uma colher de cimento na construção desse estado pavoroso de vitimização.</p>
<p style="text-align: justify;">Certa vez li que “vítima é alguém que já se considera morto.”</p>
<p style="text-align: justify;">Achei o argumento genial, quando o confrontei com pessoas, que conheço e que vivem em tal estado (não me refiro aqui à pessoa contra quem se comete um crime ou uma contravenção).</p>
<p style="text-align: justify;">As “minhas vítimas” são pessoas que se recusam a viver, porque possuem uma inaceitabilidade muito resistente contra o mundo que está aí. Vestem uma couraça e se auto protegem contra tudo e todos, da maneira mais covarde possível, optando por não viver plenamente.</p>
<p style="text-align: justify;">É fato, que viver confrontando os problemas que a família, a sociedade e o mundo trazem para todos nós, não é fácil. Mas, ainda assim, é muito melhor do que vestir a roupagem da vítima, “extremamente sensível” às agruras do mundo.</p>
<p style="text-align: justify;">Algumas há que se sentem muito bem, nessa espécie de casulo. Mas, conviver com elas é insuportável, pois sugam, de quem vive em seu derredor, toda a energia amealhada com muita força e coragem.</p>
<p style="text-align: justify;">Tais vítimas possuem uma ferramenta que trazem sempre às mãos: a chantagem emocional. E, como sanguessugas, tiram a última gota de sangue dos desavisados que as levam a sério.</p>
<p style="text-align: justify;">Fingem entregar a outros as chaves de seu destino, de modo que planejem e executem-no, pois estão “fragilizadas” em demasia, para enfrentar os problemas acarretados pela existência.</p>
<p style="text-align: justify;">Mentira! É tudo uma farsa! Na verdade, são elas quem carrega nas mãos, a saúde física e emocional daqueles que consigo convivem. Querem encarcerá-los no mesmo casulo de egoísmo, egocentrismo e covardia em que estão escondidas. São seres sadomasoquistas!</p>
<p style="text-align: justify;">Quando carregamos uma boa imagem do que somos, estamos caminhando para alcançar uma meta. E nos tornamos fortes e inabaláveis diante das hostilidades que se encontram no nosso caminho, jogando-as, à margem da estrada, e passando adiante.</p>
<p style="text-align: justify;">Todos nós, mesmo que oprimidos por uma causa ou outra, não podemos aceitar o estado vicioso de vítima, pois seria como passar o ouro ao bandido, ao se entregar à autocomiseração e ao masoquismo.</p>
<p style="text-align: justify;">Quanto mais difícil o caminho, mais forte devem ser as passadas.</p>
<p style="text-align: justify;">Caro leitor, permita-me fechar a minha reflexão com o pensamento do escritor negro Howard Thurman:</p>
<p style="text-align: justify;">“A hostilidade costuma alimentar a ilusão da auto importância e do orgulho. Muitas pessoas se sentiriam ludibriadas, se de repente fossem privadas da definição do ego que seu sofrimento lhes dá”.</p>
<p style="text-align: justify;">Abraços!</p>
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		<title>A idiossincrasia do mestre Heráclito - Charles Silva</title>
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		<pubDate>Fri, 03 Jul 2009 17:33:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Charles Silva</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Charles Silva]]></category>

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		<description><![CDATA[O professor Heráclito adorava futebol. Seu maior tesouro era uma fotografia amarelada que trazia sempre consigo, caso a memória pensasse um dia também em amarelar.
1970. Eu contava então vinte anos. “Eis os doze titulares”, dizia a todos após a conquista do tri. E era mágico aquele momento em que contávamos várias vezes o número de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">O professor Heráclito adorava futebol. Seu maior tesouro era uma fotografia amarelada que trazia sempre consigo, caso a memória pensasse um dia também em amarelar.</p>
<p style="text-align: justify;">1970. Eu contava então vinte anos. “Eis os doze titulares”, dizia a todos após a conquista do tri. E era mágico aquele momento em que contávamos várias vezes o número de jogadores até que se chegasse à conclusão espantosa: eram doze! Aquele craque ao lado de Pelé, cabelos longos e sorriso largo, peito estufado e olhar travesso se chama Heráclito!!!</p>
<p style="text-align: justify;">Estudar história com ele era incrível. A turma se acotovelava pelos corredores, ignorava as escadas, escalava as paredes e se espremia na porta, na esperança de conseguir um lugar confortável para observar a entrada do mestre em campo. Tudo nele era imprevisível: a voz, o andar, a cor do giz, aula na sala ou no pátio&#8230; Nessa época não sabíamos precisar a distância entre prazer e aventura.</p>
<p style="text-align: justify;">“A vida é um risco a nos saber sangrar de felicidade”, dizia, sempre que ficava satisfeito com o nosso desempenho. E sorria com as mãos o que não cabia nos dentes. Ao contrário dos outros professores, não fazia a chamada, dava a escalação: “goleiro, Alexandre; zagueiros, Beatriz e Beto; lateral direito, Carlos; lateral esquerdo, Débora&#8230;” Não importava o tamanho da turma. O professor Heráclito inventava funções para todos. Assim, depois de escalar titulares e reservas, chamava a comissão técnica, a equipe jornalística, a torcida organizada, enfim, todo o universo futebolístico.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando o treinador falava, um som grave ecoava por toda sala e o time inteiro ficava atento à espera do pontapé inicial. Era incrível ver como aquele homem baixinho de calva e barriga, com seus óculos de lentes pesadas, mãos pequeninas, pernas curtas e grossas, dominava aquela oitava série bagunceira e campeã em notas baixas. Para deixar claro que uma considerável parcela dos habitantes das cidades européias, à época do Antigo Regime, pertencia aos grupos da burguesia comercial, compunha música, fazia teatro, contava piadas e inventava uma série de atividades que instigavam nossa imaginação.</p>
<p style="text-align: justify;">Certa vez, ao perceber que a turma toda estava “viajando”, o capitão Heráclito propôs que fizéssemos um barco humano. Foi um sucesso. Conseguimos compreender por que a maior parte das grandes cidades européias, por volta do século XVIII, dependia de portos. Essas atividades, feitas de improviso, contribuíram bastante para que as quarenta cabeças de repolho não naufragassem naquele ano.</p>
<p style="text-align: justify;">O professor Heráclito se referia aos três estamentos do Antigo Regime como se fossem times de futebol. Afirmava que dois deles pertenciam à elite, mas o outro, o time do povão, era o de maior torcida. Insistiu inúmeras vezes que era praticamente impossível, naquela época, os jogadores mudarem de clube.</p>
<p style="text-align: justify;">Um dia ele entrou na sala de mau humor. Com um grito poderoso derrubou Marcinha, que era uma espécie de graveto esverdeado com orelhas gigantes. “O estado sou eu! A vontade de Deus é que todo aquele que nasceu súdito obedeça cegamente”! Nem mesmo os mais bagunceiros ousaram se mexer. O “seu coisinha” ficou o tempo inteiro de cara fechada e só na aula seguinte explicou sua estratégia. Então sorrimos aliviados.</p>
<p style="text-align: justify;">As gargalhadas eram constantes nas aulas do palhaço Heráclito. Senhor absoluto do picadeiro, transformava-se em domador, equilibrista, mágico, trapezista, palhaço e às vezes, professor. Mas o personagem preferido por todos era o extravagante técnico de futebol. Aí ele era impecável.</p>
<p style="text-align: justify;">Nunca esquecerei aquela tarde em que o treinador fez a escalação oficial da turma do barulho. Aproximou-se de Perivaldo, monstrinho ruivo de voz aguda, e falou com emoção fingida: “John Locke, você será o capitão do maior time da história – o Iluminista!” Olhou para Joaquim e Ariovaldo, o primeiro de pouca inteligência, o segundo de muita preguiça, e prosseguiu com a voz inflamada: “Para compor o meio de campo, Montesquieu e Voltaire!” Caminhou até o fundo da sala e espetou os olhos em Carlão, mestre da cola e da mentira: “Rousseau, você será o nosso centroavante!” Depois se voltou para Pedrinho e Manoel, os caras mais engraçados do colégio: “Diderot e D’Alembert, vocês serão os zagueiros.” Coube a mim ser o arqueiro deste time histórico e atender pelo nome de Adam Smith.</p>
<p style="text-align: justify;">Nossos pais eram torcedores fiéis, mas muito exigentes. Enquanto o placar não se mostrasse favorável, nossas orelhas camaleônicas desafiavam “a insustentável leveza do ser” ao mesmo tempo em que descobríamos que chinelas e cintos, dentre tantas outras coisas, e não menos importantes, são objetos de tortura caseira.</p>
<p style="text-align: justify;">Naquele ano, porém, o Iluminista não foi campeão. O professor Heráclito não resistiu ao aneurisma cerebral e faleceu. O colégio inteiro desbotou. As crianças trocaram risos por rugas, e durante muito tempo tivemos um entardecer com vários sóis caindo sem que a noite chegasse.</p>
<p style="text-align: justify;">Charles Silva nasceu em 1966, na cidade de Florianópolis, onde reside até hoje. É mestre em Educação e Comunicação, poeta, cronista e contista. É autor do livro “do açúcar à pimenta”.</p>
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